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CRONOLOGIA BÍBLICA



CRONOLOGIA BÍBLICA   

CRONOLOGIA BÍBLICA OU HISTÓRIA SECULAR?
Cronologia Bíblica e História Secular. Muitas vezes se expressa preocupação com a necessidade de tentar “harmonizar” ou “conciliar” o relato bíblico com a cronologia encontrada em antigos registros seculares. Visto que a verdade é aquilo que se harmoniza com fatos ou realidades, tal coordenação seria deveras vital — se se pudesse demonstrar que os antigos registros seculares são inequivocamente exatos e coerentemente fidedignos, sendo assim um padrão de exatidão que serve de base para se julgar. Visto que a cronologia bíblica foi tantas vezes representada pelos críticos como inferior àquela das nações pagãs, vale a pena examinar alguns dos antigos registros de nações e povos, cujas atividades e vida se interligavam com as pessoas e os eventos registrados na Bíblia.

A Bíblia é um livro histórico, destacando-se nisso entre escritos antigos. As histórias dos antigos egípcios, assírios, babilônios, medos, persas e outros são, na maior parte, fragmentárias; seus primórdios ou são obscuros ou são obviamente míticos, da forma como são apresentados por eles. Assim, o antigo documento conhecido como A Lista dos Reis Sumerianos começa: “Quando o reinado foi baixado do céu, o reinado estava (primeiro) em Eridu. (Em) Eridu, A-lulim (tornou-se) rei e regeu 28.800 anos. Alalgar regeu 36.000 anos. Dois reis o regeram (assim) por 64.800 anos. . . . (Em) Bad-tibira, En-men-lu-Anna regeu 43.200 anos; En-men-gal-Anna regeu 28.800 anos; o deus Dumu-zi, um pastor, regeu 36.000 anos. Três reis o regeram (assim) por 108.000 anos.” — Ancient Near Eastern Texts (Textos Antigos do Oriente Próximo), editado por J. B. Pritchard, 1974, p. 265.

O que se sabe, de fontes seculares, sobre estas nações antigas tem sido laboriosamente ajuntado de migalhas de informações obtidas de monumentos e tabuinhas, ou de escritos posteriores dos chamados historiógrafos clássicos, dos períodos grego e romano. Embora os arqueólogos tenham recuperado dezenas de milhares de tabuinhas de argila com inscrições cuneiformes assiro-babilônicas, bem como grande número de rolos de papiro do Egito, a vasta maioria destes são textos religiosos ou documentos comerciais, consistindo em contratos, notas de venda, escrituras e matéria similar. O número consideravelmente menor de escritos históricos das nações pagãs, preservados quer em forma de tabuinhas, cilindros, estelas, quer em inscrições em monumentos, consiste principalmente em matéria que glorifica seus imperadores e relata as campanhas militares deles em termos grandiloqüentes.

A Bíblia, em contraste, fornece uma história extraordinariamente coerente e pormenorizada, que se estende por uns 4.000 anos, pois, não somente registra eventos com notável continuidade, desde o começo da existência do homem até o tempo da governança de Neemias, no quinto século AEC, mas também pode ser considerada como provendo uma cobertura básica do período entre Neemias e o tempo de Jesus e dos seus apóstolos, por meio da profecia (história escrita de antemão) de Daniel, no capítulo 11 de Daniel. A Bíblia apresenta uma relato vívido e fiel à realidade sobre a nação de Israel, desde o seu nascimento, retratando com candura sua força e suas fraquezas, seus êxitos e seus fracassos, sua adoração correta e sua adoração falsa, suas bênçãos e seus julgamentos adversos, e suas calamidades. Embora esta honestidade, por si só, não garanta uma cronologia exata, oferece deveras uma base sólida para se ter confiança na integridade dos escritores bíblicos e na sua sincera preocupação de registrar a verdade.

É evidente que registros pormenorizados estavam à disposição dos cronistas bíblicos, tais como os escritores de Primeiro e Segundo Reis, e de Primeiro e Segundo Crônicas. Isto se evidencia nas extensas genealogias que puderam compilar, ascendendo a muitas centenas de nomes; também a apresentação interligada e factual dos reinados de cada um dos reis de Judá e de Israel, inclusive seu relacionamento com outras nações e entre si. Historiadores hodiernos ainda expressam incerteza sobre o posicionamento correto de certos reis assírios e babilônios, mesmo de alguns em dinastias posteriores. Mas, não há tal incerteza com respeito à seqüência dos reis de Judá e de Israel.

Há referências ao “livro das Guerras de Jeová” (Núm 21:14, 15), ao “livro dos assuntos dos dias dos reis de Israel” (1Rs 14:19; 2Rs 15:31), ao “livro dos assuntos dos dias dos reis de Judá” (1Rs 15:23; 2Rs 24:5), ao “livro dos assuntos de Salomão” (1Rs 11:41), bem como numerosas referências a anais ou registros oficiais similares, citados por Esdras e por Neemias. Estas mostram que as informações registradas não se baseavam em mera recordação ou tradição oral, mas foram cuidadosamente pesquisadas e plenamente documentadas. Os historiadores bíblicos citam também registros governamentais de outras nações, assim como partes da Bíblia foram escritas em terras fora de Israel, inclusive o Egito, Babilônia e a Pérsia. — Veja ESDRAS, LIVRO DE; ESTER, LIVRO DE; LIVRO.

Um fator que, sem dúvida, contribuiu para a contagem exata da passagem dos anos, pelo menos ao ponto em que os israelitas guardavam fielmente a Lei mosaica, foi a sua observância dos anos sabáticos e de jubileu, dividindo assim o tempo em períodos de 7 e de 50 anos. — Le 25:2-5, 8-16, 25-31.
O que especialmente distingue o registro bíblico dos escritos contemporâneos das nações pagãs é o senso do tempo, não apenas do passado e do presente, mas também do futuro, que permeia suas páginas. (Da 2:28; 7:22; 8:18, 19; Mr 1:15; Re 22:10) O elemento profético ímpar tornava a exatidão cronológica uma questão de importância muito maior para os israelitas do que para quaisquer das nações pagãs, visto que as profecias freqüentemente envolviam períodos de tempo específicos. A Bíblia, como Livro de Deus, destaca a pontualidade dele no cumprimento da Sua palavra (Ez 12:27, 28; Gál 4:4) e mostra que profecias exatas eram prova da sua Divindade. — Is 41:21-26; 48:3-7.

É verdade que alguns dos documentos não-bíblicos são vários séculos mais antigos do que as cópias manuscritas mais antigas da Bíblia até agora descobertas. Gravados em pedra e inscritos em argila, alguns dos antigos documentos pagãos talvez pareçam muito impressionantes, mas isto não assegura sua exatidão, nem sua isenção de falsidades. Não é o material usado na escrita, mas o escritor, seu objetivo, seu respeito pela verdade e sua devoção a princípios justos — estes são os fatores importantes que fornecem uma base sólida para se ter confiança tanto em assuntos cronológicos como em outros. A grande antiguidade dos documentos seculares certamente é sobrepujada pela qualidade vastamente inferior do seu conteúdo, quando comparados com a Bíblia. Visto que os registros bíblicos evidentemente foram feitos em materiais perecíveis, tais como papiro e velino, seu contínuo uso e o efeito deteriorante das condições climáticas em grande parte de Israel (diferente do clima extraordinariamente seco do Egito) pode muito bem explicar a ausência da existência de cópias originais hoje em dia. Todavia, visto que a Bíblia é o Livro inspirado de Jeová, ela foi cuidadosamente copiada e preservada integralmente até hoje. (1Pe 1:24, 25) A inspiração divina, por meio da qual os historiadores bíblicos conseguiram escrever seus registros, assegura a fidedignidade da cronologia bíblica. — 2Pe 1:19-21.

Ilustrando bem por que as histórias seculares não se habilitam como norma de exatidão pela qual julgar a cronologia bíblica há a declaração do escritor arqueológico C. W. Ceram, comentando a ciência moderna da datação histórica: “Quem quer que se ponha a estudar a história antiga pela primeira vez deve ficar impressionado com o modo positivo pelo qual os historiadores modernos datam acontecimentos que se verificaram há milhares de anos. No decurso de maiores estudos, essa admiração só poderá aumentar. Pois, se examinarmos as fontes da história antiga, veremos quão escassos, inexatos ou inteiramente falsos eram os registros, mesmo na época em que foram escritos pela primeira vez. E, se originalmente eram pobres, mais pobres ainda foram ficando até chegar a nós: semi-destruídos pelos dentes do tempo, ou pelo descuido e tosco uso dos homens.” Ele descreve adicionalmente a estrutura da história cronológica como “puramente hipotética, e que, além disso, ameaça desmoronar em cada junção”. — O Segredo dos Hititas, trad. de Milton Amado, p. 134, Ed. Itatiaia Ltda.

Esta avaliação pode parecer extrema, mas, no que se refere a registros seculares, não é sem fundamento. As informações que se seguem tornarão claro por que não há motivo de se duvidar da exatidão da cronologia bíblica simplesmente porque certos registros seculares divergem dela. Ao contrário, é somente quando a cronologia secular se harmoniza com o registro bíblico que se pode ter certa medida de confiança nessa datação secular antiga. Ao se considerarem os registros dessas nações pagãs, que tiveram relacionamentos com a nação de Israel, deve-se ter em mente que algumas das aparentes discrepâncias nos seus registros talvez se devam simplesmente à incapacidade dos hodiernos historiadores de interpretar corretamente os métodos usados antigamente, similar à sua incapacidade de interpretar corretamente os métodos usados pelos historiadores bíblicos. No entanto, há consideráveis evidências de definitiva negligência e inexatidão, ou mesmo de deliberada falsificação, por parte dos historiadores e cronólogos pagãos.

CRONOLOGIA SECULAR

CRONOLOGIA EGÍPCIA. A história egípcia mistura-se com a de Israel em diversos pontos. Nesta publicação, mostramos a data de 1728 AEC para a entrada de Israel no Egito, e para o Êxodo, 215 anos mais tarde, 1513 AEC. O ataque do Faraó Sisaque contra Jerusalém ocorreu durante o quinto ano de Roboão, em 993 AEC; o Rei Sô, do Egito, era contemporâneo do reinado de Oséias (c. 758-740 AEC); e a batalha do Faraó Neco que resultou na morte de Josias provavelmente ocorreu em 629 AEC. (1Rs 14:25; 2Rs 17:4; 2Cr 35:20-24) A diferença entre as datas acima e as geralmente atribuídas pelos historiadores hodiernos chega a um século, ou mais, quanto ao Êxodo, e depois se reduz a uns 20 anos no tempo do Faraó Neco. A seguinte informação mostra por que preferimos apegar-nos à cronologia baseada no cálculo bíblico.

Os historiadores hodiernos baseiam-se principalmente em certos documentos na forma de listas ou anais de reis egípcios. Entre estas estão: a fragmentária Pedra de Palermo, apresentando o que se considera serem as primeiras cinco “dinastias” da história egípcia; o Papiro de Turim, muito fragmentário, apresentando uma lista de reis e seus reinados desde o “Antigo Império” até mesmo no “Novo Império”; e inscrições adicionais em pedra, igualmente fragmentárias. Estas listas separadas e outras inscrições independentes foram coordenadas em ordem cronológica por meio dos escritos de Mâneto (Manetão, Maneton), sacerdote egípcio do terceiro século AEC. As obras dele, tratando da história e da religião egípcias, agrupam os reinados dos monarcas egípcios em 30 dinastias, arranjo ainda usado por egiptólogos hodiernos. Estas fontes, junto com cálculos astronômicos, baseados em textos egípcios que tratam das fases lunares e do nascimento da Estrela do Cão (Sírio; Sothis), têm sido usadas para produzir uma tabela cronológica.

Problemas da cronologia egípcia. As incertezas são muitas. As obras de Mâneto, usadas para estabelecer ordem nas listas fragmentárias e outras inscrições, são preservadas apenas nos escritos de historiadores posteriores, tais como Josefo (primeiro século EC), Sexto Júlio Africano (terceiro século EC, portanto, mais de 500 anos depois do tempo de Mâneto), Eusébio (quarto século EC) e Sincelo (de fins do oitavo ou começo do nono século EC). Conforme declarou W. G. Waddell, as citações deles dos escritos de Mâneto são fragmentárias e muitas vezes distorcidas, e, portanto, “é extremamente difícil chegar-se a ter certeza quanto ao que é Mâneto autêntico e ao que é espúrio ou corrupto”. Depois de mostrar que a matéria de fonte de Mâneto incluía algumas tradições e lendas não históricas, que “introduziam reis como seus heróis, sem considerar a ordem cronológica”, ele diz: “Desde o princípio havia muitos erros na obra de Mâneto: nem todos eles se devem às deturpações de escribas e revisores. Verificou-se que muitas das durações de reinados são impossíveis: em alguns casos, os nomes e a seqüência dos reis, conforme apresentados por Mâneto, mostraram-se insustentáveis à luz de evidência monumental.” — Manetho (Mâneto), introdução, pp. vii, xvii, xx, xxi, xxv.

A probabilidade de que reinos coincidentes em vez de sucessivos sejam responsáveis por muitos dos períodos excessivamente longos de Mâneto é demonstrada no livro Studies in Egyptian Chronology (Estudos de Cronologia Egípcia), de T. Nicklin (Blackburn, Ingl., 1928, p. 39): “As dinastias manetonianas . . . não são listas de governantes de todo o Egito, mas listas parcialmente de príncipes mais ou menos independentes, parcialmente . . . de linhagens principescas das quais surgiram posteriormente governantes de todo o Egito.” O Professor Waddell (pp. 1-9) observa que “talvez diversos reis egípcios governassem ao mesmo tempo; . . . de modo que não se tratava duma sucessão de reis, ocupando o trono um após outro, mas diversos reis reinando ao mesmo tempo em regiões diferentes. Daí surgiu o grande total de anos.”

Visto que a Bíblia aponta o ano 2370 AEC como a data do Dilúvio global, a história egípcia deve ter começado depois dessa data. Os problemas da cronologia egípcia mostrados acima sem dúvida são responsáveis pelos algarismos apresentados por hodiernos historiadores, que remontariam a história egípcia até o ano 3000 AEC.

Maior confiança é depositada por egiptólogos nas próprias inscrições antigas. No entanto, o cuidado, a veracidade e a integridade moral dos escribas egípcios de modo algum estão acima de suspeita. Conforme declara o Professor J. A. Wilson: “É preciso que se faça uma advertência sobre o valor histórico exato das inscrições egípcias. Aquele era um mundo de . . . mitos e milagres divinos.” Daí, após sugerir que os escribas não estavam acima de alterar a cronologia dos eventos para aumentar o louvor ao monarca específico no poder, ele diz: “O historiador aceitará seus dados segundo o seu valor aparente, a menos que haja uma razão clara para desconfiança; mas, ele precisa estar pronto para modificar a sua aceitação assim que alguma nova matéria coloque a interpretação anterior numa nova luz.” — The World History of the Jewish People (A História Mundial do Povo Judaico), 1964, Vol. 1, pp. 280, 281.

Ausência de informações sobre Israel. Isto não supreende, visto que os egípcios não somente se negavam a registrar assuntos desabonadores para eles, mas também não estavam acima de apagar registros dum monarca anterior, se a informação nestes registros se mostrava desagradável para o então reinante faraó. Assim, depois da morte da Rainha Hatshepsut, Tutmés III mandou retirar com cinzel o nome e as representações dela dos relevos monumentais. Esta prática, sem dúvida, explica por que não há registros egípcios conhecidos sobre os 215 anos da residência dos israelitas no Egito, nem sobre o seu Êxodo.

Não se dá na Bíblia o nome do faraó que governava na época do Êxodo; portanto, os esforços para identificá-lo baseiam-se em conjecturas. Isto explica parcialmente por que os cálculos dos hodiernos historiadores a respeito da data do Êxodo variam de 1441 a 1225 AEC, uma diferença de mais de 200 anos.

CRONOLOGIA ASSÍRIA- Desde o tempo de Salmaneser III (primeira parte do primeiro milênio AEC), inscrições assírias mencionam contatos com os israelitas, às vezes fornecendo o nome de certos reis de Judá e de Israel. As inscrições assírias incluem epígrafes, tais como as encontradas em paredes de palácios; anais régios; listas de reis, como a de Corsabade; e as listas de limmu, ou epônimos.

Epígrafes e anais assírios. Albert Olmstead, na sua obra Assyrian Historiography (Historiografia Assíria, 1916, pp. 5, 6), descreve as epígrafes assírias como segue: “Podemos . . . usar a Epígrafe para preencher lacunas nos Anais [crônicas reais alistando ano por ano os eventos], mas ela não tem a mínima autoridade quando discorda com seu original.” Depois de mostrar que o objetivo principal dessas epígrafes não era prover uma história coerente do reinado, ele acrescenta: “Igualmente sério é que raras vezes estão em ordem cronológica. . . . É óbvio que devem ser usadas com cautela.”

Ele diz a respeito dos anais: “Temos aqui uma cronologia regular, e caso às vezes se encontrem erros, intencionais ou não, pelo menos a cronologia relativa é geralmente correta. . . . Mas, seria um grave erro presumir que os anais sempre são dignos de confiança. Os primitivos historiadores aceitaram suas declarações de modo demasiado geral, a menos que tivessem prova definitiva de inexatidão. Nos últimos poucos anos, descobriu-se uma enorme quantidade de material novo, que podemos usar para a crítica dos documentos referentes a Sargão. . . . Acrescente-se a isso as referências de fontes estrangeiras, tais como as hebraicas ou babilônicas, e dificilmente precisamos fazer um estudo interno para nos convencer de que os anais estão longe de serem dignos de confiança.”

A isto se pode acrescentar o testemunho de D. D. Luckenbill: “Descobre-se logo que a transcrição exata dos eventos conforme ocorreram, ano após ano, durante o reinado do rei, não era a motivação orientadora dos escribas reais. Às vezes, as diferentes campanhas parecem ter sido deslocadas sem motivo aparente, mas, na maioria das vezes, torna-se claro que a vaidade real exigia que se tomassem liberdades com a exatidão histórica.” — Ancient Records of Assyria and Babylonia (Registros Antigos da Assíria e de Babilônia), 1926, Vol. I, p. 7.

Os anais reais tiveram usualmente uma série de edições, conforme a progressão do reinado do rei. Edições posteriores apresentavam novos eventos, mas também parecem ter alterado fatos e algarismos dos anos anteriores para satisfazer o capricho do rei. O Professor Olmstead faz referência a “[Assurbanipal] inescrupulosamente atribuir a si mesmo pouco a pouco as últimas duas campanhas egípcias de seu pai, até que, na edição final, não há nada que ele não atribua a si mesmo”. — Assyrian Historiography, p. 7.

Exemplos de tal evidente falta de fidedignidade, deliberada ou não, poderiam ser multiplicados muitas vezes. Os compiladores das listas tributárias não estavam acima de alistar um rei vassalo como pagando tributo, embora os registros mostrassem que na época ele já estava morto. George Smith, depois de citar um caso em que a mesma lista tributária de Esar-Hadom é atribuída ao seu filho, Assurbanipal, 13 anos mais tarde, diz que esta lista posterior é “mui provavelmente uma cópia literal do documento anterior, sem nenhuma tentativa de determinar se esses reis ainda reinavam e se realmente pagavam tributo”. — The Assyrian Eponym Canon (O Cânon de Epônimos Assírios), Londres, 1875, p. 179.

Listas de epônimos (limmu). Apesar da evidência supracitada, os cronólogos hodiernos, em geral, afirmam que as listas de epônimos, ou limmu, de algum modo ficaram isentas de tal corrupção, de modo a serem virtualmente impecáveis na sua isenção de erros. Estas listas de epônimos são simples listas de nomes e cargos de autoridades, ou listas desses nomes acompanhados por uma breve menção duma campanha guerreira ou de outro evento digno de nota. Por exemplo, um trecho duma lista de epônimos reza:

Bel-Harran-Bel-Usur  (governador) de Guzana    contra Damasco.
Salmaneser                assentou-se no trono
Marduque-Bel-Usur    (governador) de Amedi     no país
Mahde                (governador) de Nínive    contra [Samaria]
Assur-Ishmeani       (governador) de [Kakzi]   contra [Samaria]
Salmaneser           rei da Assíria            contra [Samaria]

Pode-se ver disso que não se fornecem propriamente datas, mas acha-se que cada nome represente um ano, aparentemente permitindo assim uma contagem de ano após ano. Historiadores hodiernos empenham-se em sincronizar a história assíria com a bíblica por meio destas listas de epônimos, especialmente referentes ao período de 911 a 649 AEC, ao qual dão os nomes ou epônimos que aparecem nas listas. Como ponto fundamental, baseiam-se na referência a um eclipse do sol, mencionado numa anotação ao lado do nome de certo Bur-Sagale, governador de Guzana. O eclipse ocorreu no mês de sivã (maio-junho) e os historiadores costumam fixá-lo como ocorrido em 15 de junho de 763 AEC. A fidedignidade desta data, e a sincronização da história assíria com a de Judá e Israel, que basearam nela, será considerada mais adiante, sob o título “Cálculos Astronômicos”.

Em vista das extremamente escassas informações contidas nas listas de epônimos (em comparação com os anais e outras inscrições), é óbvio que diminuem consideravelmente os meios de se descobrirem erros. Quando se encontram aparentes contradições entre as listas de epônimos e os anais, tais como a colocação de certa campanha num ano diferente do reinado do rei, ou durante um epônimo diferente, os historiadores hodiernos usualmente atribuem o erro aos anais, em vez de às listas de epônimos. Todavia, nem mesmo quanto à chamada história sincronística assíria, uma famosa tabuinha contendo um relato conciso do relacionamento entre a Assíria e Babilônia num período de séculos, se reivindica uma exatidão positiva. A. T. Olmstead, depois de apresentar evidência para mostrar que este documento é apenas uma cópia de uma epígrafe anterior, diz: “De modo que não podemos considerar nosso documento nem mesmo como história no verdadeiro sentido da palavra, mas apenas uma inscrição erguida para a glória de Assur [principal deus da Assíria] e do seu povo . . . Quando adotamos este conceito, não nos perturbam mais os numerosos erros, mesmo no que diz respeito à ordem dos reis, erros que reduzem tão grandemente o valor do documento onde seu testemunho é mais necessário.” — Assyrian Historiography, p. 32.

Deve ser evidente que tal arranjo variável, conforme se apresenta nas listas de epônimos, tornaria extremamente difícil para os peritos hodiernos chegarem a uma cronologia exata, especialmente quando a compilação de dados que abrangem diversos séculos foi feita por escribas aos quais evidentemente pouco importava a meticulosidade e a exatidão histórica. É também evidente que os historiadores hodiernos se sentem justificados em ajustar ou desconsiderar a contagem das listas assírias de epônimos quando outros fatores ou evidências tornam isso aconselhável.

As informações acima levam à conclusão de que a historiografia assíria ou não é corretamente entendida pelos historiadores hodiernos, ou é de qualidade bem inferior. De qualquer modo, não nos sentimos compelidos a coordenar a cronologia bíblica com a história conforme apresentada nos registros assírios. Portanto, mostramos apenas os sincronismos mais específicos entre a Assíria, e Israel e Judá, conforme indicados no relato bíblico.

CRONOLIGIA BABILÔNICA. A Babilônia entra no quadro bíblico principalmente a partir do tempo de Nabucodonosor II. O reinado de Nabopolassar, pai de Nabucodonosor, marcou o início do que é conhecido como Império Neobabilônico; terminou com os reinados de Nabonido e de seu filho Belsazar, e a derrubada de Babilônia por Ciro, o persa. Este período é de grande interesse para os peritos bíblicos, visto que abrange o tempo da destruição de Jerusalém por Babilônia e a maior parte do período de 70 anos do exílio dos judeus.

Jeremias 52:28 diz que, no sétimo ano de Nabucodonosor (ou Nabucodorosor), o primeiro grupo de exilados judaicos foi levado para Babilônia. Em harmonia com isso, uma inscrição cuneiforme da Crônica Babilônica (Museu Britânico 21946) declara: “O sétimo ano: No mês de quisleu, o rei de Acade reuniu seu exército e marchou até Hatu. Acampou-se contra a cidade de Judá, e no segundo dia do mês de adar ele capturou a cidade (e) capturou (seu) rei [Joaquim]. A um rei da sua própria escolha [Zedequias] ele designou na cidade (e) tomando o enorme tributo, ele levou este a Babilônia.” (Assyrian and Babylonian Chronicles [Crônicas Assírias e Babilônicas], de A. K. Grayson, 1975, p. 102; veja 2Rs 24:1-17; 2Cr 36:5-10.) (FOTO, Vol. 2, p. 438) Para os últimos 32 anos do reinado de Nabucodonosor não há registros históricos em forma de crônica, exceto uma inscrição fragmentária sobre uma campanha contra o Egito, no 37.° ano de Nabucodonosor.

Referente a Avil-Marduque (Evil-Merodaque, 2Rs 25:27, 28), encontraram-se tabuinhas que datam até o seu segundo ano de governo. Referente a Neriglissar, considerado ser o sucessor de Avil-Marduque, sabe-se de tabuinhas de contratos datados do seu quarto ano.

Certa tabuinha babilônica de argila é útil para relacionar a cronologia babilônica com a cronologia bíblica. Esta tabuinha contém a seguinte informação astronômica sobre o sétimo ano de Cambises II, filho de Ciro II: “Ano 7, tamuz, noite de 14, 12/3 hora dupla [três horas e vinte minutos] após o cair da noite, um eclipse lunar; visível no seu trajeto inteiro; abrangeu a parte setentrional do disco [da lua]. Tebete, noite de 14, duas e meia horas duplas [cinco horas] à noite, antes da madrugada [na última parte da noite], o disco da lua ficou eclipsado; o trajeto inteiro visível; o eclipse atingiu as partes meridional e setentrional.” (Inschriften von Cambyses, König von Babylon [Inscrições de Cambises, Rei de Babilônia], de J. N. Strassmaier, Leipzig, 1890, N.° 400, linhas 45-48; Sternkunde und Sterndienst in Babel [Astronomia e Veneração das Estrelas em Babel], de F. X. Kugler, Münster, 1907, Vol. I, pp. 70, 71) Estes dois eclipses lunares podem ser identificados com os eclipses lunares visíveis em Babilônia em 16 de julho de 523 AEC e em 10 de janeiro de 522 AEC. (Canon of Eclipses [Cânon de Eclipses], de Oppolzer, traduzido para o inglês por O. Gingerich, 1962, p. 335) De modo que esta tabuinha especifica o sétimo ano de Cambises II como tendo início na primavera setentrional de 523 AEC. Esta data é confirmada pela astronomia.

Visto que o sétimo ano de Cambises II começou na primavera de 523 AEC, seu primeiro ano de governo foi 529 AEC, e seu ano de ascensão, e o último ano de Ciro II como rei de Babilônia, foi 530 AEC. A mais recente tabuinha datada no reinado de Ciro II é do 5.° mês, do 23.° dia do seu 9.° ano. (Babylonian Chronology, 626 B.C.-A.D. 75 [Cronologia Babilônica, 626 A.C.-A.D. 75], de R. Parker e W. Dubberstein, 1971, p. 14) Visto que o nono ano de Ciro II como rei de Babilônia foi 530 AEC, seu primeiro ano, segundo este cálculo, foi 538 AEC, e seu ano de ascensão foi 539 AEC.

Beroso. No terceiro século AEC, Beroso, sacerdote babilônio, escreveu uma história de Babilônia na língua grega, evidentemente baseada em registros cuneiformes. O Professor Olmstead disse a respeito dos escritos dele: “Apenas meros fragmentos, abstratos ou traços chegaram até nós. E os mais importantes destes fragmentos foram transmitidos por uma tradição quase sem paralelo. Hoje em dia, precisamos consultar uma tradução latina moderna de uma tradução armênia do original grego perdido da Crônica de Eusébio, que se aproveitou em parte de Alexandre Polistor, que se aproveitou diretamente de Beroso, e em parte de Abideno, o qual, evidentemente, se aproveitou de Juba, que se aproveitou de Alexandre Polistor, e, portanto, de Beroso. Para tornar ainda pior a confusão, em alguns casos, Eusébio não reconheceu o fato de que Abideno é apenas um fraco eco de Polistor, e citou os relatos de ambos lado a lado! E isso ainda não é o pior. Embora seu relato de Polistor seja em geral preferível, Eusébio parece ter usado um manuscrito inferior daquele autor.” (Assyrian Historiography, pp. 62, 63) Josefo, historiador judeu do primeiro século EC, também afirma citar Beroso. Mas, parece evidente que os dados cronológicos supostamente procedentes de Beroso dificilmente podem ser considerados como conclusivos.

Outros fatores que admitem diferenças. Estudantes casuais da história antiga muitas vezes têm o conceito errôneo de que as tabuinhas cuneiformes (tais como talvez fossem usadas por Beroso) foram sempre escritas no mesmo período ou pouco depois dos eventos que registram. Mas, exceto os muitos documentos comerciais cuneiformes realmente contemporâneos, os textos históricos babilônicos e até mesmo muitos textos astronômicos freqüentemente dão evidência de serem dum período bem posterior. Assim, segundo o assiriólogo D. J. Wiseman, uma parte da chamada Crônica Babilônica, abrangendo o período desde o governo de Nabu-nasir até Samas-sum-iuquin (período datado por historiadores seculares como 747-648 AEC), é “uma cópia feita no vigésimo segundo ano de Dario [a nota de rodapé diz: I.e., 500/499 A.C. se for Dario I], de um texto mais antigo e danificado”. (Chronicles of Chaldaean Kings [Crônicas de Reis Caldeus], Londres, 1956, p. 1)

Portanto, este escrito não só estava separado dos eventos registrados nele por uns 150 a 250 anos, mas também era uma cópia de um documento anterior, defeituoso, que talvez fosse ou não um original. A respeito dos textos da Crônica Neobabilônica, abrangendo o período de Nabopolassar até Nabonido, o mesmo autor declara: “Os textos da Crônica Neobabilônica se acham escritos numa escrita pequena de um tipo que não admite em si mesmo qualquer data precisa, mas que pode significar que foram escritos em qualquer tempo desde quase que contemporaneamente com os próprios eventos até o fim da regência dos aquemênidas.” Isto admite a possibilidade de terem sido escritos só no fim do Império Persa, que ocorreu em 331 AEC, uns 200 anos depois da queda de Babilônia. Já vimos que dados, inclusive números, podem facilmente sofrer alteração ou mesmo deturpação às mãos de escribas pagãos, no decorrer de uns poucos séculos. Em vista de todos esses fatores, certamente não é sábio insistir em que as cifras tradicionais para os reinados dos reis neobabilônicos sejam aceitas como definitivas.

Tanto a falta de registros históricos contemporâneos como a facilidade com que dados podem ser alterados, definitivamente admitem a possibilidade de um ou mais dos governantes neobabilônicos terem tido um reinado mais longo do que mostram os algarismos tradicionais. Não se terem encontrado tabuinhas que abrangessem os últimos anos de tal reinado não pode sempre ser usado como forte argumento contra tal possibilidade. Há casos de reis cujos reinados ocorreram muito mais tarde na corrente do tempo e para os quais não se encontraram tais tabuinhas confirmadoras. Por exemplo, referente tanto a Artaxerxes III (Oco) (o qual, segundo os historiadores, governou por 21 anos [358 a 338 AEC]) como a Arses (a quem se atribui um governo de 2 anos [337 a 336 AEC]) não existe nenhuma evidência cuneiforme contemporânea que ajude a determinar a duração dos seus reinados.

Na realidade, os historiadores não sabem onde colocar certos reis babilônicos a respeito dos quais existem registros. O Professor A. W. Ahl (Outline of Persian History [Bosquejo da História Persa], 1922, p. 84) declara: “Nas Tabuinhas de Contratos, encontradas em Borsipa, aparecem os nomes de reis babilônicos que não ocorrem em nenhum outro lugar. Com toda a probabilidade, pertencem aos últimos dias de Dario I, estendendo-se até os primeiros dias de Xerxes I, conforme conjectura Ungnad.” Todavia, continua sendo apenas conjectura.

CRONOLOGIA PERSA. Diversos eventos bíblicos importantes ocorreram durante o período persa: a queda de Babilônia, seguida pela soltura dos judeus por Ciro e o fim dos 70 anos de desolação de Judá; a reconstrução do templo em Jerusalém, completada “no sexto ano do reinado de Dario [I, o persa]”; a reconstrução das muralhas de Jerusalém por Neemias, de acordo com o decreto emitido no 20.° ano de Artaxerxes Longímano. — 2Cr 36:20-23; Esd 3:8-10; 4:23, 24; 6:14, 15; Ne 2:1, 7, 8.

Pode-se chegar à data de 539 AEC para a queda de Babilônia não somente pelo cânon de Ptolomeu, mas também por outras fontes. O historiador Diodoro, bem como Africano e Eusébio, mostram que o primeiro ano de Ciro, como rei da Pérsia, correspondia à Olimpíada 55, ano 1 (560/559 AEC), ao passo que o último ano de Ciro é situado na Olimpíada 62, ano 2 (531/530 AEC). Tabuinhas cuneiformes atribuem a Ciro um governo de nove anos sobre Babilônia, o que, portanto, corroboraria o ano 539 como a data em que ele conquistou Babilônia. — Handbook of Biblical Chronology (Manual de Cronologia Bíblica), de Jack Finegan, 1964, pp. 112, 168-170; Babylonian Chronology, 626 B.C.-A.D. 75, p. 14; veja os comentários acima sob “Cronologia Babilônica”, também PÉRSIA, PERSAS.

Diversas inscrições de reis persas chegaram até nós, mas não são úteis para se determinar a duração dos reinados dos reis persas. Por exemplo, várias tabuinhas datadas foram encontradas em Persépolis, mas elas não incluem os nomes dos reis.

Cálculos Astronômicos. Faz-se a afirmação de que “confirmações astronômicas podem converter uma cronologia relativa [que apenas estabelece a seqüência dos eventos] numa cronologia absoluta, especificamente, um sistema de datas relacionadas com o nosso calendário”. (The Old Testament World [O Mundo do Antigo Testamento], de Martin Noth, 1966, p. 272) Embora os corpos celestes sejam o meio provido pelo Criador do homem para a medição do tempo pelos humanos, não obstante, a correlação entre os dados astronômicos e os eventos humanos no passado está sujeita a diversos fatores e interpretações humanas que admitem uma margem de erro.

Muitas das chamadas sincronizações de dados astronômicos com acontecimentos ou datas da história antiga baseiam-se em eclipses solares ou lunares. No entanto, qualquer “vila ou cidade tinha em média cerca de 40 eclipses lunares e 20 eclipses solares parciais num período de 50 anos, [embora] apenas um eclipse solar total em 400 anos”. (Encyclopædia Britannica [Enciclopédia Britânica], 1971, Vol. 7; p. 907)
Portanto, apenas no caso de um eclipse solar total especificamente mencionado, visível numa área específica, havia poucos motivos para dúvida na determinação duma data histórica específica por tais meios. Em muitos casos, a matéria de antigos textos cuneiformes (ou de outras fontes) a respeito de eclipses não fornece informações específicas deste tipo.

Um exemplo disso é o eclipse solar em que historiadores se baseiam para correlacionar a cronologia assíria com a cronologia bíblica. Ele é mencionado nas listas de epônimos assírios como tendo ocorrido no terceiro mês (a contar da primavera setentrional) durante o epônimo de Bur-Sagale. Os cronologistas hodiernos calculam tratar-se do eclipse ocorrido em 15 de junho de 763 AEC. Contando para trás 90 anos (ou 90 nomes nas listas de epônimos) a partir desta data, chegam a 853 AEC como data para a batalha de Carcar, no sexto ano de Salmaneser III. Afirmam que Salmaneser alista o Rei Acabe, de Israel, na coalizão inimiga que confrontava a Assíria naquela batalha, e que 12 anos depois (o 18.° ano de Salmaneser), o rei assírio menciona o Rei Jeú, de Israel, como pagando tributo. Deduzem então que o ano 853 AEC assinalou a data do último ano de Acabe e 841 AEC como o início do reinado de Jeú. Quão abalizados são estes cálculos?

Primeiro, embora se presuma que o eclipse solar tenha sido total, a lista de epônimos não diz isso. E, ao passo que a maioria dos historiadores, hoje, aplicaria esta referência ao eclipse de 763 AEC, nem todos os peritos o fizeram, alguns preferindo o ano 809 AEC, ano em que ocorreu um eclipse que pelo menos teria sido parcialmente visível na Assíria (assim como se deu também em 857 e em 817 AEC, etc.). (Canon of Eclipses, de Oppolzer, tabelas 17, 19, 21) Embora os historiadores hodiernos objetem a qualquer desvio da idéia do eclipse solar de 763 AEC, seguindo o argumento de que isso ‘introduziria confusão na história assíria’, já observamos que os próprios assírios introduziram considerável confusão na sua própria história.

Além disso, a presença do Rei Acabe na batalha de Carcar é bem improvável. Assim, mesmo que os reinados de Acazias e de Jeorão (que transcorreram entre Acabe e Jeú) pudessem ser reduzidos a apenas 12 anos (veja 1Rs 22:40, 51; 2Rs 1:2, 17; 3:1), a evidência é contrária a qualquer sincronização precisa da batalha de Carcar com Acabe. A menção de Jeú por Salmaneser, portanto, pode muito bem não se referir ao primeiro ano do governo de Jeú. A acusação de que os assírios alteraram os anos das suas campanhas e creditaram reis com o recebimento de tributos de pessoas que não mais viviam poderia reduzir ainda mais o suposto valor da sincronização. A tabela de “Datas de Destaque Durante o Período dos Reis de Judá e de Israel”, que acompanha este artigo, mostra que a morte de Acabe ocorreu aproximadamente em 920 AEC, contando-se o reinado de Jeú mais ou menos a partir de 904 AEC.

O cânon de Ptolomeu. Cláudio Ptolomeu foi um astrônomo grego que viveu no segundo século EC, ou mais de 600 anos depois do fim do período neobabilônico. Seu cânon, ou lista de reis, relaciona-se com uma obra sobre astronomia produzida por ele. A maioria dos historiadores hodiernos aceita as informações de Ptolomeu sobre os reis neobabilônicos e a duração dos seus reinados.

Evidentemente, Ptolomeu baseou suas informações históricas em fontes que remontam ao período selêucida, que começou mais de 250 anos depois de Ciro capturar Babilônia. Portanto, não surpreende que as cifras de Ptolomeu concordem com as de Beroso, um sacerdote babilônio do período selêucida.

Eclipses lunares. Estes têm sido usados na tentativa de consubstanciar as datas apresentadas para determinados anos dos reis neobabilônicos à base do cânon de Ptolomeu e de dados nos registros cuneiformes. Mas, embora Ptolomeu talvez computasse com exatidão ou registrasse as datas de certos eclipses no passado (um astrônomo hodierno verificou que três quintos das datas de Ptolomeu são corretos), isto não prova que sua transmissão de dados históricos seja correta, quer dizer, que sua correlação de eclipses com os reinados de certos reis seja sempre baseada em fatos históricos verídicos.

A data da morte de Herodes, o Grande, fornece uma ilustração dos problemas que se podem encontrar na datação de eclipses lunares. Os escritos de Josefo (Jewish Antiquities [Antiguidades Judaicas], XVII, 167 [vi, 4]; XVII, 188-214 [viii, 1-ix, 3]) mostram que a morte de Herodes ocorreu pouco depois dum eclipse lunar e não muito tempo antes da época da Páscoa. Muitos peritos datam a morte de Herodes em 4 AEC e citam como prova o eclipse lunar de 11 de março (13 de março, calendário juliano) daquele ano. Por causa deste cálculo, muitos cronologistas hodiernos situam o nascimento de Jesus já em 5 AEC.

No entanto, esse eclipse em 4 AEC era da magnitude de apenas 36 por cento e teria atraído a atenção de poucos no início da madrugada em que ocorreu. Dois outros eclipses ocorreram em 1 AEC, sendo que qualquer um deles se ajustaria ao requisito de ter ocorrido um eclipse pouco antes da Páscoa. O eclipse lunar parcial de 27 de dezembro (29 de dezembro, calendário juliano) daquele ano talvez pudesse ser observado em Jerusalém, mas provavelmente não era um evento que se destacasse. Segundo os cômputos no Canon of Eclipses, de Oppolzer (p. 343), a lua saía da sombra da terra quando o crepúsculo caía sobre Jerusalém, e, quando já era escuro, a lua brilhava de novo integralmente. Por outro lado, este não se encontra incluído na lista abrangente de Manfred Kudlek e Erich Mickler. Portanto, até que ponto esse eclipse era visível em Jerusalém, ou se era mesmo visível, não é certo neste ponto na história. Mais notável do que qualquer dos dois já mencionados foi o eclipse lunar, tarde da noite, que ocorreu nas primeiras horas de 8 de janeiro de 1 AEC (10 de janeiro, calendário juliano). Era um eclipse total, em que a lua ficou obscurecida por 1 hora e 41 minutos. Teria sido notado por qualquer pessoa acordada, mesmo que o céu estivesse encoberto. De modo que, durante os anos considerados aqui, mais de um eclipse ocorreu pouco antes da Páscoa. Encarado à base das informações agora disponíveis, parece que o eclipse mais provável a ter sido notado foi o de 8 de janeiro de 1 AEC. — Solar and Lunar Eclipses of the Ancient Near East From 3000 B.C. to 0 With Maps (Eclipses Solares e Lunares do Antigo Oriente Próximo de 3000 A.C. a 0 com Mapas), de M. Kudlek e E. H. Mickler; Neukirchen-Vluyn, Alemanha; 1971, Vol. I, p. 156.

Todavia, nem todos os textos usados pelos historiadores para datar eventos e períodos da história antiga se baseiam em eclipses. Encontraram-se diários astronômicos que indicam a posição da lua (em relação com certas estrelas ou constelações) no princípio e no fim da sua visibilidade num dia específico em Babilônia (por exemplo: “a lua encontrava-se a um côvado adiante da pata traseira do leão”), junto com a posição de certos planetas na mesma ocasião. Cronologistas hodiernos salientam que tal combinação de posições astronômicas não se repetiria em milhares de anos. Esses diários astronômicos contêm referências aos reinados de certos reis e parecem coincidir com as cifras fornecidas no cânon de Ptolomeu. Embora, para alguns, isso talvez pareça ser evidência incontestável, há fatores que reduzem grandemente o seu peso.

O primeiro é que as observações feitas em Babilônia podem ter contido erros. Os astrônomos babilônios mostraram a maior preocupação com eventos ou fenômenos celestes que ocorriam perto do horizonte, ao nascer ou ao pôr da lua ou do sol. No entanto, o horizonte, conforme visto de Babilônia, freqüentemente é obscurecido por tempestades de areia. Comentando este fato, o Professor O. Neugebauer declara que Ptolomeu se queixou da “falta de observações planetárias fidedignas [da antiga Babilônia]. Ele [Ptolomeu] comenta que as observações antigas foram feitas com pouca competência, porque se preocupavam com aparecimentos e desaparecimentos, e com pontos estacionários, fenômenos que pela sua própria natureza são muito difíceis de observar”. — The Exact Sciences in Antiquity (As Ciências Exatas na Antiguidade), 1957, p. 98.

Segundo, é fato que a grande maioria dos diários astronômicos encontrados não foram escritos na época dos impérios neobabilônicos ou persas, mas no período selêucida (312-65 AEC), embora contenham dados relacionados com aqueles períodos anteriores. Os historiadores presumem que se trata de cópias de documentos anteriores. Na realidade, faltam textos astronômicos contemporâneos pelas quais se possa determinar a plena cronologia dos períodos neobabilônico e persa (desde os fins do sétimo até os fins do quarto século).

Finalmente, como no caso de Ptolomeu, embora as informações astronômicas (como agora interpretadas e entendidas) nos textos descobertos sejam basicamente exatas, isto não prova que a informação histórica acompanhante seja exata. Assim como Ptolomeu usou os reinados de reis antigos (conforme ele os entendia) simplesmente como estrutura em que colocar seus dados astronômicos, assim também os escritores (ou copistas) dos textos astronômicos do período selêucida talvez simplesmente inserissem nos seus textos astronômicos aquilo que então era a cronologia aceita, ou “popular”, daquele tempo.

Esta cronologia aceita, ou popular, talvez contivesse erros nos pontos críticos já considerados neste artigo. Para ilustrar isso, certo astrônomo (ou escriba) antigo talvez declarasse que certo evento celeste ocorreu no ano que, segundo nosso calendário, seria 465 AEC, e a declaração dele talvez se mostre correta quando se fazem computações exatas para verificá-la. Mas ele talvez também declarasse que o ano em que o evento celestial ocorreu (465 AEC) era o 21.° ano do Rei Xerxes, e nisso estar inteiramente errado. Em termos simples, a exatidão na astronomia não prova exatidão na história.

Datação Arqueológica. Os métodos de datação baseados em artefatos encontrados em escavações são considerados sob o verbete ARQUEOLOGIA. Em suma, pode-se dizer que, na ausência de inscrições realmente datadas, a datação por artefatos, tais como cacos de cerâmica, nunca pode ser mais do que algo comparativo. Isto é, o arqueólogo só pode dizer que ‘este estrato específico e seu conteúdo nesta elevação evidentemente pertence ao mesmo período geral de um certo estrato naquela elevação (ou antes ou depois dele)’. Assim se desenvolve uma seqüência cronológica geral, mas sempre sujeita a correções e mudanças, mudanças que às vezes ascendem a centenas de anos. Por exemplo, em 1937, o arqueólogo Barton atribuiu cerâmica da “Primitiva Idade do Bronze” ao período de 2500-2000 AEC, ao passo que, no ano seguinte, W. F. Albright alistou o mesmo período como 3200-2200 AEC.

Por isso, conforme declarou G. Ernest Wright: “Neste campo, raras vezes podemos trabalhar com certezas. Antes, é necessário elaborar hipóteses, as quais sempre possuem maior ou menor grau de probabilidade. A verdade nelas baseia-se na habilidade deles [dos arqueólogos] de interpretar e conjugar uma variedade de dados discrepantes, mas, a qualquer momento, uma informação nova pode tornar necessário mudar determinada hipótese, ou fazer o perito expressá-la de modo um pouco diferente.” — Shechem, The Biography of a Biblical City (Siquém, a Biografia Duma Cidade Bíblica), 1965, prefácio, p. xvi.

O que ilustra isso ainda mais é uma declaração feita em Chronologies in Old World Archaeology (Cronologias na Arqueologia do Velho Mundo), editado por Robert Ehrich, impresso em 1965 para substituir uma obra anterior de 1954, e contendo um compêndio de conceitos sobre “a rede flutuante de cronologias relativas”, conforme expressos por destacados arqueólogos. O prefácio (p. vii) diz: “O objetivo deste livro é apresentar, em série, as cronologias de diversas áreas contíguas, conforme parecem em 1964 aos olhos de especialistas regionais. Apesar das novas informações, a situação geral ainda é instável, e novos dados tornarão obsoletas algumas das conclusões, possivelmente até mesmo antes de este volume sair impresso.” Deve-se ter isto em mente quando se avaliam datas que arqueólogos atribuem à idade de certas cidades, tais como Jericó, ou ao período a que atribuem a conquista da Palestina por Israel.

HISTORIADORES DO PERÍODO CLÁSSICO GREGOS E ROMANOS. O termo “clássico”, aqui, aplica-se ao período e à cultura dos antigos gregos e romanos. Além de serem fonte da história grega e romana, os escritos de certos historiadores clássicos são tomados por historiadores hodiernos como base para preencher lacunas ou para confirmar certos dados no registro dos antigos Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Síria e Palestina.

Os antigos historiadores gregos incluem: Heródoto (c. 484-425 AEC); Tucídides (c. 471-401 AEC); Xenofonte (c. 431-352 AEC); Ctésias (quinto século AEC); e, mais tarde, Estrabão, Diodoro da Sicília e Alexandre Polistor, do primeiro século AEC; e Plutarco, do primeiro e segundo séculos EC. Os historiadores romanos incluem Tito Lívio (59 AEC-17 EC); Cneu Pompéio Trogo, contemporâneo de Lívio; Plínio, o Velho (23-79 EC); e Sexto Júlio Africano (terceiro século EC), provavelmente nascido na Líbia. Além destes, principais fontes de informações são Mâneto e Beroso (já considerados); Josefo, historiador judeu, cujos escritos (embora às vezes contraditórios na sua forma atual) são bastante úteis para informações sobre o primeiro século EC; e Eusébio, historiador eclesiástico e bispo de Cesaréia (c. 260-342 EC).

Todos estes viveram depois do período assírio e neobabilônico, e apenas os primeiros quatro mencionados viveram durante o período do Império Persa. Para os períodos assírio e neobabilônico, portanto, nenhum destes escritores apresenta informações baseadas em conhecimento pessoal, mas, antes, eles registram os conceitos tradicionais de que souberam, ou, em alguns casos, talvez lessem e copiassem. A exatidão de seus dados obviamente depende da exatidão das fontes usadas.

Não só isso, mas aquilo que sabemos sobre os escritos deles depende atualmente de cópias de cópias, a cópia mais antiga remontando às vezes apenas ao período medieval da Era Comum. Já notamos como as cronologias de Mâneto e de Beroso foram mutiladas pelos copistas. A respeito das qualificações e da fidedignidade dos outros historiadores antigos do período clássico, merece ser notado o seguinte:

A maneira de Heródoto tratar da história — fazer perguntas, procurar informações relevantes e depois tirar uma conclusão — é tida em alta conta. Mas, diz-se também que, às vezes, “seus dados eram insatisfatórios”, e que “ele oferece uma explanação racional lado a lado da irracional”. Diz-se também que ele pertence “nitidamente à escola romântica”, e assim era tanto contador de histórias como historiador. (The New Encyclopædia Britannica [A Nova Enciclopédia Britânica], edição de 1985, Vol. 5, pp. 881, 882; edição de 1910, Vol. XIII, p. 383) Quanto a Xenofonte, diz-se que “objetividade, meticulosidade e pesquisa não eram seu forte”, e que ele enfeitava suas narrativas com “conversas fictícias”. (The New Encyclopædia Britannica, 1987, Vol. 12, p. 796) George Rawlinson acusa Ctésias de deliberadamente estender o período da monarquia média “pelo uso consciente de um sistema de duplicação”. Declara adicionalmente: “Cada rei, ou período, em Heródoto, ocorre duas vezes na lista de Ctésias — um artifício óbvio, desajeitadamente encoberto pelo expediente vulgar da invenção liberal de nomes.” — The Seven Great Monarchies of the Ancient Eastern World (As Sete Grandes Monarquias do Antigo Mundo Oriental), 1885, Vol. II, p. 85.

Sobre a história romana do período dos reis (que precedeu ao estabelecimento da república) lemos que ela “remonta aos domínios de pura mitologia. É pouco mais do que uma coleção de fábulas contadas com quase nenhuma tentativa de crítica, e sem mais consideração para com a seqüência cronológica do que era necessário para fazer o conto seguir suavemente ou para preencher lacunas tais como as existentes entre a fuga de Enéias de Tróia e o suposto ano da fundação de Roma”. Mesmo no período depois do estabelecimento da república (c. 509 AEC), os historiadores ainda estavam prontos para assentar por escrito tradições populares ao lado de fatos históricos, sem fazer questão e diferenciá-los. “Inventaram-se linhagens, inseriram-se exercícios de consulados [a datação romana freqüentemente era feita por consulados [tempo do exercício deste cargo]] e triunfos fictícios, e tradições familiares . . . foram formalmente incorporadas na história do estado.” Somos informados sobre os escritores romanos de anais: “Copiavam aquilo que encontravam escrito; as lacunas eram preenchidas pela imaginação, quando não havia experiência pessoal.” — The Encyclopædia Britannica, 1911, Vol. XVI, pp. 820, 821.

Tucídides. Tucídides é amplamente considerado como exceção à regra geral de inexatidão e descuido de que se acusam tantas vezes os historiadores clássicos. Tucídides se destaca pela sua meticulosa pesquisa. The New Encyclopædia Britannica (1987, Vol. 11, p. 741) diz a respeito dele: “Sua autoridade dificilmente é igualada pela de qualquer outro historiador. Ele se ateve a um esquema estritamente cronológico, e, nos pontos em que este pode ser testado com exatidão pelos eclipses que ele menciona, ajusta-se muito bem.”

Precisa-se às vezes recorrer aos historiadores clássicos para obter informações necessárias, especialmente para o período persa (conforme tratado nos livros de Esdras, Neemias e Ester) e até os tempos apostólicos. Os escritos deles são também de ajuda na determinação do tempo e dos eventos em cumprimento de partes das visões proféticas de Daniel (caps. 7-9, 11), que se estendem até mesmo além do período apostólico.
No entanto, as informações apresentadas anteriormente mostram que não há motivo para se colocarem as histórias e as cronologias deles no mesmo nível da própria Bíblia. Quando surgem diferenças, pode-se confiantemente depender do registro bíblico, escrito quer por testemunhas oculares, quer por aqueles que, iguais a Lucas, têm “pesquisado todas as coisas com exatidão, desde o início”. (Lu 1:1-4)

As informações cronológicas exatas nos relatos de Lucas e de outros tornam possível fixar as datas dos principais eventos na vida de Jesus e do período apostólico. — Mt 2:1, 19-22; Lu 3:1-3, 21-23; e muitos outros.

MATÉRIAS COMPLEMENTARES



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